Deslumbre (e transformação)
meio mulher, meio metamorfose ambulante
[Edição #85]
Ser mulher é um terror. Entrei na sessão de Hamnet (2025, direção de Chloé Zhao) com o coração leve; era um dia de felicidade simples; os hormônios estavam em paz. Meu estado de paz contribuiu para o surpreendente fato de não derramar uma lágrima quando os créditos subiram na tela. A Agnes (Jessie Buckley) mãe dialoga pouco comigo, que nunca dei à luz. Ela, contudo, desbloqueou medos que me tomam quando penso na possibilidade de ter um filho. O tempo de tela avançava e eu me via visceral, vivendo a maternidade alheia em toda a sua crueza, querendo gritar a injustiça de deixar uma mãe perder sua cria. Tem longa data essa minha paixão pelo que a arte cinematográfica me oferece: viajar sem precisar sair do lugar. Seja para outro país ou para uma realidade distante da minha.
Dentro daqueles 125 minutos, o mundo lá fora virou um borrão e me deu espaço para calçar os sapatos de Agnes. Mergulhei na dor daquela mulher a ponto de passar batido pelo fato de William (Paul Mescal) viver ausente. É um privilégio deixar a mulher tomando conta dos filhos enquanto se desloca até a cidade grande para fazer vingar a carreira de dramaturgo. Só que, em Hamnet, o nosso foco é Agnes e, portanto, também passamos à margem de qualquer contratempo daquele homem para estabelecer o nome dele no teatro.
Temos, então, a sequência em que Agnes assiste a um dos espetáculos do parceiro. Jessie Buckley veio do teatro e trabalha com cinema há anos; foi fisgada pelo bicho da arte e sabe o quanto ela pode ser transformadora. Admiro o trabalho que ela faz no papel de Agnes porque as primeiras reações da personagem ao espetáculo são genuínas. Eu realmente me convenci de que ela nunca experimentara nada como isso. Os comentários em voz alta de quem tenta entender o que está acontecendo, a desconfiança, as primeiras reações, as interações com o ator no palco. Pequenos blocos que se acumulam na descoberta da arte.
Queria ter uma história bonita sobre meu primeiro contato com a literatura ou com o cinema. É possível que eu tenha vivido uma versão de Felicidade Clandestina, conto de Clarice Lispector, ao ganhar A Droga da Obediência, do Pedro Bandeira. Mas aquela não foi a minha primeira leitura. Tive a sorte de ser exposta à arte ainda criança. Cresci em uma casa cheia de livros, com uma irmã atriz e uma mãe que, infelizmente, desistiu das artes plásticas, mas teve tempo de me ensinar a apreciar a magia dos pincéis e da tinta a óleo.
A única expressão artística que chegou meio tarde ao meu repertório foi a dança. Trabalhei por uns anos na Secretaria Municipal de Cultura da cidade de São Paulo e, enquanto funcionária, tive acesso a alguns espetáculos do Theatro Municipal. Sendo honesta, ainda bem que ninguém filmou a minha reação ao ver o Balé da Cidade pela primeira vez. Passei os primeiros dez minutos boquiaberta, desacreditada da capacidade daquelas pessoas de mover o corpo com tanta fluidez. Quando meus olhos se habituaram a acompanhar aquela gente que parecia fazer uma pintura com o corpo no meio do palco, agradeci por não usar maquiagem, pois teria borrado o rosto todo. Fiquei obcecada pela apresentação de Cacti e passei a encher a paciência do nosso editor para que me deixasse cobrir tudo de dança dali em diante. Eu nunca tinha dançado, não conhecia nada sobre dança, mas aquele encontro foi minha definição de deslumbre por anos. Desse tipo de evento que nos tira o norte e nos coloca em suspenso, sem saber bem explicar o que vimos de tão emocionante.
Um pouco como o amor, sabe? Foi o que vi nos olhos de Agnes naquela cena final. A emoção pura de quem perde o verbo diante de algo tão bonito. Ela começa revivendo a dor de perder Hamnet e termina transformada pela arte. Agnes se impressiona ao entender como o marido usou a arte de suporte para atravessar o mar de ondas inquietas que é o luto. Não para superá-lo. Luto não tem prazo de validade. Mas ele encontra um jeito de ressignificar o desconforto e deixar uma lembrança bonita do amor que sente pelo filho.
Eu tinha minha resistência para tirar os band-aids e deixar a ferida respirar. Logo eu, que tenho um corpo coberto de tatuagens que demandam cuidados extras para cicatrizar bem as feridas causadas por agulhas furando a pele. Nos últimos anos, a vida se encarregou de arrancar os band-aids e ainda de espirrar álcool nas feridas. Tal qual William, recolhi os cacos e estou há meses dando um novo significado ao meu desconforto. Faço da forma mais desengonçada. Nas folhas do diário, na escrita do meu romance, na newsletter.
Mês passado o cinema da cidade onde moro organizou uma mostra chamada girl. Tinha na programação As Virgens Suicidas, de Sofia Coppola; Girlhood, de Céline Sciamma; Garota Interrompida, de James Mangold, entre outros. A ideia era explorar os diversos aspectos do que é ser mulher e como isso é interpretado na sétima arte. Eu gosto da escolha de ‘garota’ em vez de ‘mulher’. Do meu ponto de vista, carrega um pouco de deboche e uma mensagem de acolhimento: para abraçarmos nossas fragilidades e as entendermos como força. Aquela história de “tudo o que você faz, eu faço sangrando”.
Já me questionaram se não tinha vergonha das minhas “coisas de menina”. Dos meus livrinhos, dos meus filminhos, dos meus textinhos. Tudo no diminutivo, porque o intuito é encolher, menosprezar. A maturidade me permite dizer que nada disso me envergonha. Vou continuar me empolgando toda vez que a Sofia Coppola anunciar um filme novo; espero poder me esgoelar em outro show da Lorde ou da Florence and the Machine e pedir autógrafo para escritoras de quem eu gosto nos eventos literários.
Eu me desfaço das palavras que abrem o texto para dizer que ser mulher é uma aventura. Dessas cheias de riscos, porque não fecho os olhos para a misoginia e conheço o longo caminho que ainda temos a percorrer para ter um pouco mais de respeito. Mas agora consigo olhar para esses pequenos pedaços de complexidade e imperfeição das garotas que eu fui com apreço. Choro no meio do filme, no show; trato meus rabiscos com seriedade; deixei de cercear minhas emoções. Acolho minha veia artística, da qual me envergonhei por tantos anos. Deslumbrada e transformada.
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Um cheeeiro e até a próxima!





que deslumbre de texto!