Léxico de resistência
exercícios para voltar a ter esperança
[Edição #82]
(Para ler ao som de ‘To Perth, before the border closes’, de Julia Jacklin)
“Não vejo esperança para o futuro”. A frase ecoava na madrugada, enquanto perdíamos o sono pensando na densidade do futuro. O cenário geopolítico é desesperador. De um lado, a ameaça de um conflito de grandes proporções. Já faz anos que ouço falar numa guerra mundial iminente. Do outro lado, observo o horror palpável dos massacres na Palestina e a repressão sistêmica que silencia vozes no Irã. Enquanto as potências globais, patricinhas de uma globalização seletiva, fingem demência diplomática, nossos dados são consumidos como um bicho afamado por algoritmos. Nossos cérebros exaustos buscam anestesiar o peso do real com conteúdos vazios. Com os olhos grudados na tela, lemos a história de superação de uma garota qualquer; nos emocionamos com o vídeo de um vira-lata caramelo salvando alguém de um incêndio.
A realidade nunca teve tanta cara de incógnita. Vejo a Inteligência Artificial deixar de ser uma previsão distópica para se tornar a carta de demissão de pessoas próximas. E o clima. O inverno holandês, agora mais ameno, me permite deixar o casaco pesado em casa. Queria comemorar, mas me angustio. Enquanto aqui o frio recua, meus amigos no Brasil tentam sobreviver a um calor que já não é mais clima, mas castigo. Os recursos escasseiam, as matas nativas cedem ao lucro e nós seguimos. Tudo está em ruínas e, ainda assim, se vive.
Envelheço. Minhas idas ao mercado nunca foram das mais felizes, visto que, dentre os alimentos frescos, a qualidade nunca foi das melhores na Holanda. Mas tem ficado cada vez mais deprimente caminhar pelos corredores de opções limitadas e de valores nada generosos. Não mudamos de hábitos em casa, mas os preços só aumentam. Não sei por quanto tempo ainda estarei desempregada, mas essa incerteza me soterra em dois medos: de ficar velha para o mercado e de perder a chance de, um dia, gestar uma vida. Queria que essa realidade fosse só minha; numa escala menor, doeria menos. Com os amigos, todavia, o roteiro se repete com pequenas alterações. Andamos rindo da própria desgraça para não chorarmos sozinhos num canto. Não há esperança para o futuro.
Essa onda de desânimo corroeu minha concentração a ponto do ritmo das leituras estagnar. Mas, num esforço quase teimoso, terminei Léxico Familiar, de Natalia Ginzburg. Com sua prosa documental e deliberadamente neutra, Ginzburg narra a vida que acontece apesar de. Enquanto a Itália mergulhava no fascismo e a Europa se esfacelava, a pequena Natalia observava o fluxo da casa: intelectuais entravam e saíam, alguém desaparecia sem aviso, um prisioneiro morria sob tortura. E, ainda assim, a rotina não parava. A costureira aparecia para os ajustes, os irmãos se casavam, as viagens aconteciam e a própria Natalia formava sua família. A vida seguia seu curso burocrático em meio aos escombros.
Fechei o livro me indagando: e se essa ansiedade coletiva por soluções rápidas for, na verdade, um sinal de que desaprendemos a habitar o tempo? Será que hoje apenas esperamos por uma ‘melhora’ milagrosa na velocidade de um vídeo curto na rede social e, sem solução imediata, sentimos que não nos resta senão desistir? Ou a desgraça atual está, de fato, se diluindo no nosso cotidiano e não temos mais para onde correr?
Lembrei-me então de Tara Selter, em Sobre o cálculo do volume, de Solvej Balle. A personagem habita um eterno 18 de novembro. Passei pelas primeiras vinte páginas angustiada, porque sabia que era o primeiro livro de sete. Demorei a sossegar o ânimo porque não parava de pensar em como a autora resolveria essa equação, colocando a personagem a atravessar o mesmo dia ao longo de tantas páginas. Eu queria a resolução imediata. Minha cabeça, viciada em estímulos breves, revoltava-se com a lentidão de Tara em fazer algo antes mesmo de finalizar o primeiro volume da série. Os outros livros ainda me aguardam, mas já comecei a digerir o fator ‘inventivo’ da autora. Quando não há mais futuro e nos vemos presos no tempo, o que nos resta é dominar a gramática da repetição.
Ginzburg me deu o chão: o relato seco da vida que se segue sob o fascismo. Balle me ofereceu a fantasia por meio da invenção de um cotidiano estagnado. Se a história é um acúmulo de desgraças às quais sociedades resistiram e se reinventaram, meu exercício atual é menos ambicioso, porém mais urgente: como encontrar fé na caminhada por entre escombros que parecem não ter fim?
Se não há esperança para o futuro, que haja ao menos a teimosia do presente. Foi o que esses dois livros me ensinaram.
Sobreviver à repetição não é encontrar uma saída mágica, mas aprender a gramática desse tempo estagnado. A leveza que busco não é a ausência de peso, mas a recusa de ser esmagada por ele. Entre o medo de envelhecer e a angústia de um clima desregulado, tento me agarrar ao esforço de terminar a página, de sustentar o olhar fora da tela, de habitar o minuto sem a pressa do próximo vídeo. Não por otimismo, mas por necessidade. Porque se a vida insiste em acontecer 'apesar de', meu único ato de fé possível é continuar aqui, inteira, escrevendo a minha própria história em meio às ruínas.








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Belíssima edição. Sigamos na recusa de sermos esmagadas pelo peso.