Corpo estranho
Por que somos um povo com autoestima tão baixa?
[Edição #83]
No fim da faculdade de Jornalismo, eu tinha um estágio em assessoria de imprensa, mas ainda sonhava em trabalhar numa redação. Em São Paulo, num dos incontáveis processos seletivos para uma certa editora, uma das atividades envolvia nos apresentarmos como uma bula de remédio. Ao entrarmos na sala, recebíamos uma folha de papel com as instruções: pense na composição dessa medicação, na posologia e nas contraindicações. No tempo concedido para nos prepararmos, tive que conter o riso. Me sentia um pouco Jack Torrance, de O Iluminado, num impulso irônico de me apresentar como um Rivotril. Estava em vias de maluquecer com as dinâmicas de grupo e outras demandas desmioladas como esta. Perdi muitas horas naqueles tempos tentando entender como aqueles processos eram montados e de que forma me vender como uma medicação poderia cantar a bola das minhas qualidades como repórter.
Eu já soube, ainda adolescente, que tinha uma autoestima lamentável. Quando entrei no mercado de trabalho, entendi que a falta de amor-próprio seria uma pedra no sapato e que talvez fosse melhor ficar na coxia. Orquestrar, em vez de me colocar em cena. Não prestava para jornalista, mas poderia ser uma ótima assessora de imprensa. Na ideia maluca de mudar de área, também esqueci de calcular o quanto a confiança em meu potencial era essencial para me posicionar no mercado de tecnologia, dominado por homens com muita confiança em si.
Com alguns anos de experiência profissional nas costas, vi um colega lançar um projeto em que quase nada funcionava. Ele, contudo, estava orgulhoso e disse que tinha dado o melhor de si e que só precisava afinar os resultados. Eu me lembro dessa cena como se tivesse acontecido ontem, logo eu, que no menor deslize já chegava pedindo mil desculpas e propondo pelo menos três soluções. Ponderei se não era besta da minha parte achar tudo o que eu faço apenas satisfatório e me punir pelo menor erro. Esqueceram de colocar em mim a tal pecinha que me faz capaz de me vangloriar.
Fiquei dois meses e meio afastada de um dos meus trabalhos. Quando retornei, no meu segundo mês de reintegração, meu chefe disse que precisávamos seguir o protocolo da empresa e fazer a minha avaliação anual. Alertou que pegaria leve, dada a situação. Entre muitas críticas pouco construtivas, alegou que eu precisava parar de agir como uma gestora de produtos júnior, pois eu era sênior. Atônita, eu nem consegui chorar naquele dia. O chá revelação de que eu era sênior ecoou, ainda mais se considerarmos que, naquela época, meu salário era bem abaixo do de um júnior.
Anos mais tarde, protagonizei a maior presepada da minha carreira profissional. Na minha quarta semana trabalhando para uma nova empresa, minha então chefe anunciou que não me validaria após o período probatório de um mês (!) porque…eu não era sênior o suficiente para a vaga. Que, após três semanas trabalhando naquele local, eu já deveria ser capaz de apresentar, com segurança e maestria, um caso de negócio robusto, assim como o Produto Mínimo Viável do projeto, a um membro do Conselho de Administração.
Racional, agarrada à realidade, só conseguia perceber o quão descabido era esperar desempenho espetacular de uma pessoa que nem chegou a completar o mês trabalhando num lugar novo. Ainda mais levando em consideração a minha insistência em ter acesso às ferramentas que me permitiriam, justamente, trabalhar no tal caso de negócio. A mona esqueceu de me informar, durante o processo seletivo, que procurava um MacGyver que aceitasse um salário bem abaixo da média do mercado para aquela vaga.
Sair do Brasil me fez fechar a cara e acolher um corpo estranho: na França, minha estratégia consistia em usar a cartada da proficiência em três línguas. Boa parte dos meus desentendimentos girava em torno do francês. Piadas sobre o sotaque, risadinhas quando eu confundia o gênero de uma palavra. Parei de me incomodar, dizendo que era mesmo difícil ser perfeita em francês enquanto existia com três línguas dançando na minha cabeça. Curiosamente, eles sossegavam no ato. Na Holanda, após seis longos anos, ainda não descobri uma estratégia para rebater todas as vezes em que tentaram me diminuir.
Na cultura latina, e em particular no Brasil, fala-se muito sobre esforço. E é fácil cair no discurso da meritocracia. Se você tem um objetivo, basta esforçar-se para obtê-lo, independente das suas origens. Por isso gostamos tanto de histórias de superação. E é muito bonito ver uma pessoa que cresceu sem muitos recursos ter êxito na vida. Mas as mesmas vozes que nos dizem para dar o sangue pelo sonho também repetem que é preciso ser subserviente. Ainda mais sendo mulher. Tem que seguir as regras, obedecer, falar baixo e não usar palavrões. Se estiver no trabalho, você até pode tentar se defender e contra-argumentar, mas não muito: lembre-se: talvez você queira um posto superior, mas ainda não está lá e precisa respeitar alguns códigos ao longo do processo. Se o reconhecimento não chegar, é melhor ficar em carne viva até obtê-lo. Se fracassar, é porque faltou esforço.
A mesma cultura que me ensinou a ser discreta mostrou que era constrangedor “se achar”. Ganhar um prêmio é legal; receber uma promoção também. Se você celebrar em alguma rede social, algumas pessoas vão vibrar junto. Mas não se exalte demais, porque pode soar arrogante. Por que celebrar vitórias precisa ser comedido? Se fiz algo que me deixa orgulhosa, cujo resultado me faz vibrar uma alegria que o peito não acomoda, por que não posso gritar o sucesso jogando confetes e serpentinas?
Cresci convencida de que a modéstia era uma qualidade e que esse lance de me colocar no mundo de forma assertiva era característico de quem não sabe dimensionar o próprio tamanho. Mas o autoconhecimento me ajudou a ter consciência das minhas falhas e a entender que autoestima não é arrogância disfarçada. Com isso, consigo me enxergar como um ser humano em constante construção. Engatinho na empreitada de não enxergar o fracasso como um sinal para desistir, e de festejar qualquer pequena conquista. Precisei, sim, de tempo e de muita terapia para entender que “me achar” não é um defeito e que o confete que eu nunca hesitei em jogar em cima dos outros também pode pousar em mim.
Em tantos anos de terapia, tento acalmar meu sistema imunológico para aceitar esse corpo estranho que acredita no próprio potencial, se admira, ou, em bom português, que se acha a última bolachinha do pacote. Já não penso mais na perspectiva de provar meu valor, mas sim no desejo de incorporá-lo. Reconhecer meus triunfos sendo bocuda e usando o botão do rádio para diminuir o volume das vozes tão cheias de opiniões.
Para além dos Estrangeirismos
Sobre o choro que trava na garganta, como se esperasse a hora certa para desaguar. Da Surina.
Medo do futuro e desespero pelo presente? Temos. Texto visceral da Odhara.
A vida e os novos cálculos de rota que ela nos força a fazer, do Rafa Isidoro.
Gisèle Pelicot foi entrevistada no Daily, podcast do New York Times.
Vamos continuar esta conversa?
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E me conta: quando foi a última vez que você jogou confete em cima de si mesmo, sem se sentir constrangido por isso?
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Um cheeeiro e até a próxima!




As newsletters chegam em um ritmo superior ao da minha leitura, o que faz com que eu muitas vezes vá ler dias depois, ou mesmo fora da ordem em que foram enviadas. Esta não chegou a maturar na minha caixa de entrada, mas teve a sua vez na fila bem depois de um dia de pensamento em looping de se devo ou não colocar para andar um sonho que está nascendo dentro de mim. Confesso que tenho muito medo de não dar em nada e nestas horas tento me convencer dizendo que sem fazer, o nada está mais do que garantido. E vejo sim como um assunto de autoconfiança. Obrigada por me mostrar que não estou sozinha neste "lugar"
sensacional, Lidy, me identifico tanto! por que somos um povo com autoestima tão baixa? tenho um palpite.. porque somos corajosas. colocamos nosso corpo-estranho a jogo e a sensação de impostora é constante. acho que é mais fácil bancar o bonzão quando não se sai do lugar, né?