O primeiro manuscrito
um pouco sobre o processo de não desistir do famigerado sonho
[Edição #91]
Terminei.
Era segunda-feira à tarde, penúltima semana de julho, sentei-me no meu escritório e disse: de hoje não passa. Entrei naquele barco em 2021 com experiência e até um tanto de conhecimento, mas ainda tremia só de pensar em dizer em voz alta as palavras que saíram dos meus dedos. Pessoas ouviriam; alguém faria apontamentos. Não era um gesto besta, desses de jogar um punhado de parágrafos no mundo e fingir que nunca existiram, como se ninguém fosse encontrá-los em algum canto qualquer. Seis meses se passaram desde aquela primeira viagem. Às vezes, eu ensaiava a palavra proibida de frente para o espelho, só quando estava sozinha em casa, mas, prestes a me convencer, apagava as luzes e lamentava o exercício ridículo. Passaram-se meses e na comemoração dos meus 31 anos, um casal de amigos me presenteou com um Moleskine vermelho de capa dura, com meu nome estampado em dourado. Escrevi nele o que seria o embrião de uma história criada por ninguém mais, ninguém menos do que a minha imaginação.
Só que aquela não era uma gestação tradicional: duraria quatro anos. Passou dois anos adormecida, sem se mexer. Não criou braços, pernas, nada. Vivia outros desesperos da vida adulta, urgências que me despedaçaram a ponto de não sobrar espaço nenhum para o sonho.
Até 2025. Entre oficinas de escrita e mais tentativas de amadurecer a ideia de escrever um romance, juntei um punhado de páginas e contratei uma pessoa para me ajudar a dar estrutura à desordem de ideias que até então carregava. Tomei outra rasteira no meio do caminho, logo que 2026 começou, e estive mais uma vez em vias de largar mão e aceitar que o sonho deveria ficar na prateleira em que se encontrava antes, aquela dos desejos intocáveis & impossíveis.
Entre junho e julho, passei a frequentar duas bibliotecas públicas da cidade com a missão de conversar com Maria Luísa, Marília e Heitor, até encontrarmos juntos as peças que nos levariam até o fim daquela história que imaginei em 2022. E na última segunda-feira, consegui. Terminei o primeiro manuscrito do romance.
Fechar o arquivo, sabendo que, sem considerar a releitura e a edição pendentes, cheguei ao fim, desbloqueou, em torrente, memórias dos meus primeiros anos de adolescência. A principal lembrança desbloqueada foi ter escrito meu primeiro livro, na realidade, aos 13 anos. Já tinha amizades feitas na internet, mas com essa eu me correspondia por cartas. Essa amiga morava no Rio de Janeiro; era um pouco mais velha que eu, mas também era adolescente e já tinha escrito dois livros. Ambos foram impressos por conta própria e chegaram até a minha casa com dedicatória e o incentivo para que eu também escrevesse uma história ficcional. A simples ideia de que alguém com menos de 18 anos pudesse escrever um romance me fascinou o bastante para acatar a sugestão. Anos mais tarde, achei o arquivo perdido num HD externo. A versão adulta que o encontrou vivia uma fase de ódio pela adolescente que fui e o excluiu sem pensar duas vezes.
Ao escrever aquele primeiro projeto que virou lixo digital, eu já amava os livros e sabia do bem que a leitura me fazia. Mas ainda não conseguia dizer se escrever era um sonho meu ou uma projeção do sonho da amiga. Precisei de dezoito anos para fazer a distinção. A criação de blogs e livejournals, de duas newsletters, uma faculdade, um mestrado, uma mudança de Estado e duas de país precisaram marcar minha história para chegar a 2022 certa de que sim, aquele sonho que um dia pareceu muito bobo era meu. Eu queria escrever um romance. Mas eu achei que precisaria estar pronta, me preparar, estudar, talvez até fazer uma formação em escrita criativa.
Tudo isso é, em parte, verdade. Tive que viver muito para amadurecer a ideia; contei com escritores brilhantes me guiando pelo caminho, mas não havia uma fórmula mágica. Só dependia de mim dar o primeiro passo. Continuei, apesar de todas as vozes da minha cabeça me incentivarem a parar, apesar da vida que acontecia, com seus altos e baixos, alheia ao fato de que eu só queria um pouco de paz de espírito para cruzar a linha de chegada do meu sonho.
Agora eu me olho no espelho e digo, firme: sou escritora. Quando conheço alguém e me perguntam o que faço da vida, respondo: escrevo. Cheguei ao ponto final, consciente de que ele era, na verdade, um ponto e vírgula: meu manuscrito ainda vai passar por uma leitura minuciosa e por um trabalho posterior e pesado de reescrita. Mas concluí a primeira versão da história, do começo ao fim, e já tenho ideias anotadas para outros livros que pretendo escrever no futuro. Desta vez, não desisti.
As fotos que ilustram o texto são da poeta visual Meiry. Fiz em 2022, quando ainda ensaiava esse negócio de dizer que sou escritora.
Tem uma versão mais caótica em vídeo contando sobre a sensação de ter terminado meu primeiro romance no Youtube. Considere uma inscrição marota por lá também:
Textos irmãos deste, para quem curtiu a vibe:
Cara pessoa que me lê, você está na FLIP? Em maio colei alguns adesivos da newsletter pelas ruas de Paraty e duvido que tenham sobrevivido aos preparativos para a festa. Mas caso veja algum deles por lá, me conta?
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Um cheeeiro e até a próxima!









Parabéns! É mesmo um passo muito importante. Que essa história possa encontrar muita gente e seja lida e relida.
Que felicidade! Estou escrevendo o meu e você me deu motivos para continuar ❤️