Deslizando
um inventário do que fica para 2026
[Edição #81]
Não sabia em qual direção olhar, tampouco dizer em que momento 2025 virou 2026. Cresci acostumada a ver fogos de artifício saracoteando no céu num local específico da cidade quando dava meia-noite. Na praia, por exemplo, quando passei em Paraty-RJ, ou no meio da Avenida Paulista, quando fiquei em São Paulo. Se o local em questão estivesse longe, o que acontecia com certa frequência, assistia à transmissão na televisão. Meus pais nunca foram de festejo na virada do ano, e mesmo adulta, comemorei poucas vezes fora de casa. Faz seis anos que digo que é a última vez que passo o réveillon na Holanda, mas sempre me organizo mal e acabo nesse frio de lascar, num cenário que mais se parece com o apocalipse.
Após tanto tempo morando aqui, continuo estranhando o fascínio dos holandeses em soltar fogos ensandecidamente já no dia 30 de dezembro. Normalmente eles só param quando o primeiro dia do novo ano amanhece. Comportamento peculiar de uma população que é sim bastante barulhenta, mas no geral se porta com discrição. Como se eles se guardassem durante 365 dias para, igualmente, explodir, soltar a franga e tocar o terror no último dia do ano. Desta vez, assisti à dança assíncrona de fogos entre Haia, Rijswijk e Rotterdam do alto do vigésimo quinto andar de um prédio, no apartamento de um casal de amigos. A distância abafou a barulheira ensurdecedora.
31 de dezembro, em grande parte da minha existência, acontecia na rodinha da introspecção. Não seguia rituais, só jantava mais tarde. Em casa, nos abraçávamos quando batia meia-noite e depois íamos dormir. Se juntar todas as vezes em que comemorei fora de casa até 2017, deve totalizar entre 4 ou 5 festanças num contexto “diferente”. Me despedi de 2017, por sinal, tomando vinho e ouvindo música sozinha no meu apartamento em Montbéliard.
Essa solidão daqueles anos, misturada aos conflitos emocionais de quem mora fora, já foi tema aqui outras vezes. Em 2023, escrevi que não queria viver um sonho. Em 2024, as circunstâncias me fizeram gritar baixo. Agora, em 2026, noto que mudei a direção do olhar: cansei de tentar escapar da realidade e aprendo, aos poucos, a aterrar e a entender melhor quais rumos quero tomar em solo estrangeiro.
Com ou sem festa, já perdi a esperança de me acostumar com a ideia de estar tão coberta na virada do ano. Meu organismo passou tempo demais transpirando bicas em dezembro para encarar o frio de lascar o couro com naturalidade. Isso porque ainda prefiro passar frio a calor, mas detesto a ideia de começar o ano cobrindo meu pescoço com um cachecol. E isso me leva a pensar que os holandeses são, definitivamente, doidos por entrarem no Mar do Norte com uma boina laranja no primeiro dia do ano. Tradição batizada de Nieuwjaarsduik1, ritual de renovação para o novo ano que eu prefiro observar de longe, muito bem agasalhada.
Vivo nessa Holanda de ventos gelados, mas onde raramente neva. Em seis anos morando aqui, vi os canais congelarem poucas vezes e até peguei um pouco de neve, mas em menos de dois dias tudo derretia. Nesses primeiros dias de 2026, ela não só ficou como tivemos dias seguidos nevando sem parar. Se você nunca viu neve antes, posso te contar que é um dos fenômenos mais lindos da natureza. As paisagens, sobretudo as montanhas cobertas de neve, são perfeitas para acreditar na força mística das coisas. É bonito demais para ser verdade; só pode ser criação divina.
A Holanda, contudo, não tem montanhas. E embora a neve seja bonita, não é prática para uma rotina que envolve sair de casa para fazer qualquer coisa. Só que ninguém se apertou.
Foi a primeira vez em seis anos que vi holandeses serem espontâneos e, com o perdão da ironia, isso até derreteu um pouco meu coração. Me dei conta do quanto sinto falta de ver pessoas se divertindo com coisas pequenas em público. A galera escorregava pelas ruas cobertas de gelo, dando gargalhadas; uma pessoa tentava ajudar a outra a se levantar e caía também; os mais corajosos se aventuravam pedalando no meio da neve.

Multiplicou-se o número de bonecos de neve dos mais criativos pelas calçadas e teve até criança usando a rua como pista de patinação. Numa sociedade que preza pelo pragmatismo e pelo planejamento minucioso de eventos sociais, foi um alívio ver esse povo se permitindo uma vez na vida. Da minha parte, na escrita, passei os últimos anos tentando dar ordem ao caos de ser estrangeira. Mas ali, vendo os holandeses se divertindo com as condições meteorológicas, entendi que a crônica da vida não é sobre o planejamento perfeito, mas sobre o que fazer com os imprevistos.
Quando deu meia-noite, encarei aquele fogaréu causado pelos fogos de artifício e pensei: que 2026 não faça do desespero areia movediça como fez em 2025. Não temos controle de quase nada nesta vida, mas a imprevisibilidade me deixou sem chão num nível que preferia não experimentar daqui adiante. É desestabilizador surtar diante de cada surpresa desagradável que desponta no caminho, e para 2026 prezo pela espontaneidade. Quero rir dos tombos que nem os holandeses com as ruas congeladas da primeira semana do ano.
Até porque, na areia movediça, quanto mais se luta contra, mais afunda. No gelo nós escorregamos, sentimos o impacto e talvez seja meio desengonçado se levantar. Mas a superfície é sólida e, uma hora, a gente consegue ficar em pé novamente. Para este ano que se inicia, não quero estabilidade nem equilíbrio, porque a vida já provou que isso é utopia.
Desejo apenas que, quando o chão me faltar outra vez, eu já tenha aprendido que deslizar também é um jeito de seguir em movimento.
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adorei sua foto na neve. A golden hour te deixou com uma golden aura.